Uma nova fresta para o que está acontecendo.

Fazendas de bots e IA exploram vulnerabilidades cognitivas dos idosos para ampliar golpes digitais

Por: Marco Barone

Criminosos passaram a utilizar redes automatizadas, repetição algorítmica e inteligência artificial para manipular mecanismos cerebrais ligados à confiança e à familiaridade. Em um país que ganhou 24,5 milhões de idosos conectados em poucos anos, a terceira idade tornou-se um dos principais alvos do crime digital

A vulnerabilidade dos idosos aos golpes digitais pode estar menos relacionada à falta de conhecimento tecnológico e mais à forma como o cérebro humano reage à exposição contínua a mensagens aparentemente confiáveis. Impulsionadas por inteligência artificial, fazendas de bots e sofisticadas técnicas de engenharia social, organizações criminosas vêm explorando mecanismos cognitivos conhecidos pela ciência para induzir pessoas com mais de 60 anos a confiar em informações falsas, realizar transferências bancárias e compartilhar conteúdos enganosos.

Segundo o advogado especialista em mídia e telecomunicações Walter Vieira Ceneviva, do Vieira Ceneviva Advogados e da LIBEX (Associação pela Liberdade de Expressão), o fenômeno não deve ser analisado apenas sob a ótica individual, mas também sob a responsabilidade das plataformas digitais. “Redes automatizadas de perfis falsos são capazes de criar uma falsa sensação de consenso e credibilidade. Quando essa exposição ocorre repetidamente, ela influencia processos mentais ligados à familiaridade e à confiança. O problema é global, mas a responsabilização das plataformas reduz significativamente os danos ao limitar a atuação dessas estruturas artificiais”, afirma.

O tema ganha relevância justamente quando o Brasil vive uma revolução silenciosa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do IBGE, mostram que a proporção de idosos conectados saltou de 44,8% em 2019 para 69,4% em 2024. Na prática, isso representa aproximadamente 24,5 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais utilizando a internet regularmente.

Mais do que conectados, eles se tornaram usuários intensivos. Levantamentos do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) indicam que quase 88% dos idosos que utilizam internet acessam a rede diariamente, impulsionados principalmente pelo uso de aplicativos bancários, Pix, redes sociais e plataformas de mensagens.

A rápida digitalização transformou a população idosa em um dos segmentos mais valiosos da economia digital, mas também em um dos principais alvos das organizações criminosas. Com o apoio de inteligência artificial, criminosos conseguem hoje reproduzir vozes de familiares, simular aplicativos bancários, criar mensagens altamente personalizadas e desenvolver fraudes capazes de enganar até usuários experientes.

Ao contrário do senso comum, pesquisas internacionais da Universidade de Cambridge indicam que pessoas mais velhas não são necessariamente mais suscetíveis à desinformação do que os jovens. Em muitos casos, apresentam níveis iguais ou superiores de capacidade para identificar notícias falsas isoladas. A experiência de vida, a cautela e o senso crítico costumam funcionar como mecanismos naturais de proteção.

O problema surge quando entram em ação as chamadas fazendas de bots — estruturas compostas por milhares de perfis automatizados que simulam comportamento humano nas redes sociais. Essas redes artificiais ampliam mensagens, repetem narrativas e multiplicam contatos aparentemente legítimos, criando um ambiente de constante exposição a determinados conteúdos. Esse fenômeno é descrito como “ilusão da verdade por repetição”: quanto mais uma informação é vista, ouvida ou compartilhada por diferentes fontes aparentemente independentes, maior tende a ser a sensação de familiaridade e credibilidade atribuída a ela. Nos idosos, essa estratégia encontra terreno fértil porque muitos utilizam a internet prioritariamente para manter vínculos afetivos e relações de confiança com familiares e amigos.

É justamente nesse ambiente que prosperam os golpes mais modernos. Clonagem de voz por inteligência artificial, falsos atendimentos bancários, fraudes envolvendo Pix, perfis falsos e campanhas coordenadas de manipulação digital exploram emoções como confiança, urgência, medo e proteção familiar. O resultado é que a inclusão digital, celebrada durante anos como conquista social, passou a exigir uma nova etapa: a proteção digital. Dados da Anatel mostram que milhões de idosos brasileiros ainda permanecem desconectados. Mas especialistas alertam que o desafio mais urgente já não é apenas ampliar o acesso à internet. É garantir que aqueles que já estão conectados possam navegar em um ambiente digital mais seguro.

A discussão avança também em outras partes do mundo. Na Europa, novas regulamentações passaram a exigir maior responsabilidade das plataformas na identificação e remoção de conteúdos fraudulentos e redes automatizadas utilizadas para manipulação e aplicação de golpes. No Brasil, o crescimento simultâneo da população idosa conectada e das fraudes digitais recoloca no centro do debate a responsabilidade das big techs, das autoridades públicas e dos sistemas de proteção ao consumidor. Afinal, a questão já não é apenas tecnológica. Trata-se de entender como a inteligência artificial e as redes automatizadas passaram a disputar a atenção, a confiança e, em muitos casos, o patrimônio de milhões de brasileiros da terceira idade.